COMENTÁRIO DA PRIMEIRA EPÍSTOLA DE SÃO JOÃO
Comentado por Santo Agostinho

Este livro foi escrito por Santo Agostinho entre os anos 413 e 418 A.D.

Tradução do original em latim por Nair de Assis Oliveira - Editora Paulinas, 1989.

Os textos bíblicos foram traduzidos da versão latina chamada de Vulgata, diferenciando das atuais versões em português no Brasil e inclusive, às vezes, quanto a indicação do capítulo e versículo do texto bíblico citado. Contudo, estas diferenças não comprometem o comentário e suas implicações cristãs para a Igreja hoje e sua relação com o mundo atual.

TRATADO I
(Este sermão foi pronunciado no Domingo da Páscoa)

PARTE 6

Considera o que diz são João: ”Se dissermos que não temos pecado enganamo-nos a nós mesmos e a verdade não está em nós” (1Jo 1,8).

Portanto,se te confessas pecador, a verdade está em ti, pois a mesma verdade é luz. Tua vida não resplandece ainda na perfeita claridade, porque os teus pecados ainda persistem. A luz, porém, já começa a se fazer em ti, pois confessastes teus pecados. Com efeito, escuta o que se segue: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para perdoar os nossos pecados e purificar-nos de toda iniquidade” (ibid., 9). Não apenas os nossos pecados passados, mas também aqueles que talvez contraímos pelo fato de estarmos neste mundo, porque enquanto o homem estiver revestido de carne, não pode deixar de cometer pecados – não fossem senão pecados leves. Mas por leves que os denominemos, não os consideremos insignificantes. Parecem insignificantes quanto ao peso, mas assustam quanto ao número. Grande número de objetos leves fazem uma grande massa, muitas gotas enchem um rio; quantidade de grãos formam uma pilha.

Qual será, então, a nossa esperança? Antes de tudo, a confissão. Que ninguém se julgue justo. Sob o olhar de Deus que vê o que é o homem, ninguém levante com orgulho a cabeça – esse que nada era e agora é. Então, antes de tudo a confissão, depois o amor. O que é dito sobre a caridade? “O amor cobre uma multidão de pecados” (1Pd 4,8).

Examinemos, pois, se são João recomenda-nos esta caridade em face dos pecados que se infiltram em nós, pois somente a caridade apaga os pecados. O orgulho destrói a caridade; a humildade, ao contrário, fortifica a caridade; a caridade apaga os pecados. A humildade provém da honesta confissão pela qual reconhecemos que somos pecadores. Refiro-me à verdadeira humildade – não a que faria confessar-nos da boca para fora. Por exemplo, aquela que nos levaria a tal, para não aparecermos como antipáticos aos olhos dos outros homens, por causa de nossa arrogância em nos fazer passar por justos. É assim que fazem os ímpios e os insensatos. Pensam eles: Bem sei que sou justo, mas que vou dizer de mim aos outros? Se me vanglorio, quem me aceitará ou suportará? Que minha justiça seja conhecida de Deus; mas me direi pecador – não que o seja – mas que pela arrogância não venha a me tornar antipático. Na verdade, dize aos homens o que és, dize a Deus o que és. Pois, se não disseres a Deus o que és, Deus te condenará pelo que encontrar em ti. Não queres que ele te condene? Começa por te condenares a ti mesmo. Queres que ele te perdoe? Reconhece o que és, de maneira que possas dizer: “Esconde a tua face dos meus pecados” (Sl 50,11). Dize-lhe ainda estas palavras do mesmo salmo: “Pois reconheço minhas maldades” (Sl 50,5).

“Se confessarmos os nosso pecados, ele é fiel e justo para perdoar os nossos pecados e purificar-nos de toda iniquidade. Se dissermos que não pecamos, fazemo-lo mentiroso, e a sua palavra não está em nós” (1Jo 1,9.10).

Se disseres: Não pequei, fazes Deus de mentiroso, querendo te fazer de veraz. Como pode ser Deus mentiroso e o homem veraz, contra o testemunho das Escrituras: “Deus é veraz, enquanto todo homem é mentiroso” (Rm 3,4 e Sl 116,11).

Deus é pois veraz por si mesmo, quanto a ti, só por Deus serás autêntico, pois por ti mesmo és mentiroso.


PARTE 7

Mas não penseis que são João promete a impunidade aos pecados, por dizer: “Ele é fiel e justo para perdoar os nossos pecados e purificar-nos de toda iniquidade” (1Jo 1,9). Portanto, nem penseis que os homens podem dizer de si mesmos: Pequemos! Façamos com segurança, tudo que quisermos. Cristo, fiel e justo, purifica-nos de toda a iniquidade. São João te tira esta falsa segurança e te infunde temor salutar. Se procuras segurança falsa, permaneces na vã ansiedade.

Sim, Deus é fiel e justo para perdoar os pecados, mas sob a condição de estares sempre descontente contigo mesmo e procurares mudar para melhor.

Não está nessa linha o que se segue? “Meus filhinhos, isto vos escrevo para que não pequeis” (1Jo 2,1).

Mas, se por acaso, pelo fato de levarmos uma vida humana, o pecado penetrar em ti, o que fazer? Deixar-se ir ao desespero? Ouve: “... se alguém pecar, temos como advogado, junto ao Pai, Jesus Cristo o justo. Ele é a vítima de expiação pelos nossos pecados” (ibid., 2 ).

Cristo é pois, o nosso advogado. Toma tento de não pecares. Mas, se pela fraqueza desta vida, o pecado te invade, percebe de imediato e condena-o. Condenando-o logo, virás com toda segurança ao seu juiz. Nele tens um advogado. Não temas perder a causa, uma vez tua falta confessada. Se nesta vida, vemos por vezes que se confia a um advogado não perder a sua causa, confiando-te ao Verbo, pensas haver de perder a tua? Exclama: “Temos como advogado junto do Pai, Jesus Cristo”.